quinta-feira, 26 de março de 2009

Bordar é antídoto para os males contemporâneos

Ninguém sabe ao certo quando um de nossos antepassados usou a agulha de osso e a linha de tripa para produzir, pela primeira vez na história, um artesanato têxtil de finalidade exclusivamente estética: o bordado. Não existe prova arqueológica que determine quem, quando, onde e como foi criada a arte de bordar. Mas é lícito fazer duas suposições. A primeira: essa artesã ancestral era uma mulher. A segunda: ela provavelmente não trabalhou sozinha por muito tempo.
Fácil de ensinar e de aprender, a tarefa faz mais sentido quando compartilhada. Bordar a sós é bom, mas bordar em grupo é infinitamente melhor. Dezenas de milhares de anos depois, é a (re)descoberta cotidiana do poder agregador do bordado que move o Mãos de Ariadne. Em atividade há cinco anos, esse coletivo de bordadeiras de São Paulo reúne dez mulheres de idades, formações e profissões diferentes. Nenhuma delas vive de bordar. Sua motivação é outra: elas bordam a vida.
Todas as peças criadas pelo Mãos de Ariadne celebram fatos marcantes da existência de cada integrante da equipe: o casamento de uma, o nascimento do bebê de outra, o sexagésimo aniversário da bordadeira-fundadora, tudo se transforma em histórias contadas com pano, linha e o afeto de vinte mãos – como a cortina de pássaros que dá boas vindas ao filho recém-chegado de uma das “Ariadnes”, projeto atualmente em andamento. Amadoras no melhor sentido da palavra, as artesãs não obedecem a uma hierarquia interna nem se prendem a cronogramas ou estilos de bordado. Liberdade de criação e de escolha oxigenam essa micro-organização em rede. Suave e solidariamente, tudo funciona.
O grupo acredita no bordado como antídoto para males contemporâneos que envenenam as relações interpessoais. Contra a produção massificada e descartável, a criação perene e personalizada. Numa era de individualismo exacerbado, o elogio ao empenho coletivo. Diante de um ritmo de vida alucinante, a paciência para respeitar o tempo de que cada projeto precisa para ficar perfeito. Numa sociedade impiedosa na cobrança de resultados, a sabedoria de saborear os processos – maior do que o prazer das bordadeiras em concluir uma peça é o enriquecimento mútuo das mulheres interagindo em volta da mesa de trabalho. Ali se faz mais do que ornamentar tecidos: ali as “Ariadnes” arrematam o aprendizado da convivência.

Texto de Silvio Fudissaku

7 comentários:

Rosemarie disse...

Nossa, adorei o texto do Silvio, lindo... Um olhar sensível e uma escrita enxuta que deu conta de expressar o principal do nosso grupo: nossa prazer de estar junto, nossa alegria de celebrar com as mãos as coisas importantes da vida! Nossos agradecimentos, Silvio!

Cristiane Tavares

Rosemarie disse...

TEXTO LINDO, LINDO LINDO....
Tenho alunos meus que tendo aprendido a bordar não largaram as agulhas por muito tempo...Saibam que conheço muitos rapazes de 7 anos, com olhar masculino atentíssimo!!!

Andrea

Rosemarie disse...

Sílvio, obrigada por este presente. Você e o Ed mostraram grande talento e grande observação em relação ao nosso grupo. Obrigada por serem tão sensíveis. Adorei! Gde beijo a todas e a todos!

Érika

Rosemarie disse...

Sílvio,
que texto maravilhoso!!
Você também é um grande artesão: "costura" como ninguém belas palavras e ideias.
Nem mesmo eu tinha a noção exata do que o grupo de bordados significava para mim. Sempre o senti como algo "suave e solidário", mas o que mais admirava mesmo era trabalhar com várias mãos.
Que bom que o trabalho para o Nicolas reacendeu a ideia de trabalharmos juntas, pois como já dizia um grande escritor, somos mulheres com "a sabedoria de saborear os processos – maior do que o prazer das bordadeiras em concluir uma peça é o enriquecimento mútuo das mulheres interagindo em volta da mesa de trabalho.
Obrigada, Sílvio!
Aproveito para agradecer todo o grupo pela harmonia e bem-estar.
Bjs,
Simone.

Rosemarie disse...

Sílvio, eu já era sua fã, agora estou insuportável de tanto me deliciar com a leitura de seu texto. Tô exibida e me sentindo privilegiada de participar do "Mãos".
É isso mesmo, brindamos a vida com nossas mãos, juntas! Ou melhor, juntos!
Obrigada por dividir conosco sua sensibilidade (e parceria nos desenhos).
Bjo da Tite

Rosemarie disse...

Ariadnes,
que depoimento mais sensível e motivador. Eu especialmente me senti bastante acolhida e impressionada com os gestos, as cores, as formas, as histórias, a delicadeza e o poder de compartilhar histórias cotidianas.
"... elas bordam a vida..." é pura declaração de amor a vida que muitas vezes nos parece tão distanciada do sensível, do gesto poético, estético, enfim, da vida na sua manifestação mais festiva: acolher, compartilhar e brindar.
Agradeço pela oportunidade.
Muitas cores pra cada uma.
Grande abraço. Lindalva.

Rosemarie disse...

Fiz o meu comentário com a Rose, ao telefone, mas agora também quero deixar registrado aqui como fiquei emocionada ao ler as palavras do Silvio. Como diz a Rioco, a presença silencioso dos homens revela gratas supresas, seja na escolha da música, no desenho, na cozinha ou com um comentário. E agora esse texto maravilhoso, em que o Sílvio fez um belo retrato do grupo, do qual tenho muito orgulho de participar.

Beijos

Cleide